| 1977 - DISCURSO DE PRIMAVERA E ALGUMAS SOMBRAS |
A Palavra Mágica Certa palavra dorme na sombra de um livro raro Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. Vou procurá-la. Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo. Se tarda o encontro, se não a encontro, não desanimo, produro sempre. Procuro sempre, e minha procura ficará sendo minha palavra. (Carlos Drummond de Andrade )) |
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
A palavra mágica
Amar

| 1960 - ANTOLOGIA POÉTICA |
Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar,desamar, amar? Sempre, e até de olhos vidrados, amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. ((carlos Drummond de Andrade )) |
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